Gota DÁgua Preta- Texto de P. Pontes e C. Buarque. Montagem e Direção de Jé Oliveira

MEMÓRIA PESSOAL DE UMA EXPERIÊNCIA COLETIVA E NEGRA, NO BRASIL EM INÍCIO DO SECULO XXI. Arquivos de textos publicados no FaceBook por Salloma Salomão
Sexta-feira, 14 de outubro, às 16 horas, receberemos no Auditório Sedas Nunes do ICS um coletivo formado por Jé Oliveira (USP-SP), Salloma Salomão Jovino (USP. CELLAC e Conservatório Dramático Musical de Tatuí-SP), Aysha Nascimento (ELT- Escola Livre e Teatro de Santo André-SP) e o músico Lucas de Campos, que nos brindarão com a palestra “Gota D’Água Preta. Teatralidades negras numa sociedade tensa e à beira do colapso”, seguida de um pequeno concerto.
Este evento tem o apoio do GI LIFE – Percursos de Vida, Desigualdades e Solidariedades, e do GI Identidades, Culturas e Vulnerabiliti. Resumo: Há vinte anos atrás uma cena multicultural rica e efervescente emergia nos Brasis no mesmo momento em que a sociedade brasileira dava sinais de melhorias das condições de vida das classes subalternas e correção das iniquidades históricas, em relação as populações afro-indígenas. Contudo, uma descarada manipulação das instituições gerou a destituição da presidenta da república. Essa ocorrência de 2016 conduziu rapidamente o país para uma luta intestina por hegemonia entre setores de extrema direita. Coordenada por um pequeno grupo dirigido por mercenários, paramilitares, empresários e setores da mídia, um ex-militar subalterno alcançou o topo do poder civil pelo voto, ainda que fizesse abertas apologias a tirania, ao regime ditatorial e a tortura. O esboço de políticas culturais públicas criadas entre 2003-2011 repercutiram na emergência de polos criativos-culturais em todo país. Festivais regionais de música, dança, cinema, literatura e uma rica cena de teatral e cinematográfica rapidamente foram suplantadas por discursos de nacionalismo autoritário e imediata redução dos recursos investidos em Educação e Cultura. Gota D’Água Preta é uma montagem com adaptações do texto de Paulo Pontes e Chico Buarque, originalmente concebido sob inspiração de Medéia para o contexto de uma favela carioca dos anos 1970. Sendo a população negra a mais pobre no Brasil, o texto jamais teria sido montando por atores negros e negras. A montagem dirigida pelo ator Jé Oliveira traz elenco majoritariamente negro autodeclarado e realoca o cenário para uma favela paulistana. A música recebe cores contemporâneas sobre a estética MPB Negra e Rap, com citações a Elza Soares e Racionais M’cs. As apresentações realizadas em várias capitais do país foram recebidas com casas lotadas e criticas quase sempre elogiosas dos veículos de comunicação. Jé Oliveira, Aysha Nascimento e Salloma Salomão Jovino são criadores e protagonistas de uma nova dramaturgia e teatralidade negras produzida nos Brasis do século XXI. Tópicos da fala de Salloma. 1- Uma forte ideologia nacionalista fundamentada nas teorias lusotropicalistas construída por Gilberto Freyre e outros ideólogos de estado tem impedido a sociedade brasileira de desenvolver valores de equidade e democracia efetiva. 2-Podemos definir o lusotropicalismo como racialismo de estado no qual se ambiciosa criar sociedade racial e culturalmente homogênea, contanto que branca e fundamentalmente de orientação cristã. 3- Embora o nome de Freyre tenha se perdido nas tramas da ignorância disseminada pelas mídias e precariedade de nossas instituições escolares são suas as bases da ideologia em vigor em todo pais, agora unificadas pelo bolsonarismo. 4- A ideologia e a política bolsonRistas têm sido um combinação de propaganda massiva que apela para um imaginário anticomunista de tempos da guerra fria, um apelo ao retorno da ditadura militar e um apelo aos valores de pátria-familia-fé. Sobre a pátria em tese pesa o perigo comunista-vermelho representado pelo Lulismo e evoca se a fidelidade das forças armadas, 5- Sobre a Família evoca se os perigos dos avanços alcançados na conquistas dos direitos pelas minorias afro indígenas e lgbtqia+,pelos movimentos feministas e lutas pelo direito ao aborto. 6- A mais grave das praticas políticas bolsonarista consistiu na liberalização quase absoluta do acesso de armamento a população civil. Este era um preceito mantido pelas constituições desde o império. 6-Os grupos armados ligados aos potentados regionais podem ser percebidos historicamente desde o período colonial como um fato corrente. Desde o império, o poder central em larga medida utilizou as forças regulares para combater tais grupos e em alguns momentos foram incorporados aos forças polícias do estado. 7-Desde a redemocratização que o governo federal mantinha constantes programas de desarmamento, interrompidos ainda durante o governo Temer, que antecedeu Bolsonaro. 8-Bolsonaro tem combinado acenos a indústria mundial de armas, com afagos ao militares e vista grossa ao crescimento dos grupos paramilitares. Antes da pandemia os números haviam estabilizado em 60mil pessoas mortas anualmente pela utilização de armas de fogo. Isto a morte da população inteira de uma cidade de médio porte. 9-Nossas teatralidades Negras têm sugerido que este é o panorama limite onde empreendemos nossas criatividades e nossas próprias vidas.
Foto de Elcio Silva. Salloma Jovino Salomão oesSrpontd9h i0 d 10u19uau u 1c5 u u o 3 d tl b 4 7 1 1 7 e 6a9 2 2 83 t 9 0 r 66 e o · Compartilhado com Público Textão. Gota D'água Preta encerra temporada no SESC Ginástico RJ. Os sentimentos e sensações são de um pouco de cansaço, sinusite e vitória coletiva. Caminhada bakana começada há pouco mais de um ano sob a batuta do maestro Jé Oliveira, com leituras de texto nas casas do Walter Garcia e Juçara Marçal e eu estava lá. Processo criativo extremamente rico com pessoas (in) críveis que já conhecia e outras que chegaram durante o processo . Sou muito grato a todos e todas nessa jornada e até mesmo a quem passou rapidamente e me deixou algo pra refletir e aprender sobre criação artístico cultural e as contradições inerentes aos processos humanos e nossa realidade sócio racial. Numa leitura livre minha, Gota de Chico e Paulo Pontes seria um texto centrado em Jasão e sua "traição de classe", mas aqui foi intencionalmente vertido para ter foco na figura da Mulher (mátria) que levada a um beco sem saída, comete infanticídio. Sabidamente a cidade do Rio de Janeiro é a capital brasileira com maiores taxas de morte de jovens negros desde a década de 1970 ( veja Eduardo Coutinho, O fio da memória). Embora essa relação nem seja evidente, trata se de ( estado nação) uma sociedade surgida de tal violência original, nascida trágica e que se perpetua nas inúmeras tentativas da morte de si mesma, matando suas crias. Mas como são homens os detentores do poder, a verdadeira pátria e aquele lugar macho, capaz de matar os seus filhos todos os dias, invertendo ao longo tempo formas mais perversas. Um homem nação de pau vermelho na mão, sem nenhuma referência ao tal homem do pau Brasil. Eu sou um filho que escapuliu. Ou não? Quem me conhece a bastante tempo sabe da minha busca das artes e suas linguagens e também devem presumir as dificuldades, à partir das margens de uma sociedade elitista e racista, para se chegar a algo realmente valioso e do que se tenha orgulho e que não se tenha que pedir desculpa e nem agir com falsa modéstia. Quero dizer minha busca pela arte total, pela expressão livre e genuína é uma constante desde a juventude, (isso é um fato não uma carteirada). Por vezes, sinto que alguns artistas mais jovens, mesmo de origem pobre, passam a alimentar por nós, artistas afro periféricas com 50 para mais, certo desprezo enviesado, seja pela exposição midiática, seja pelo acesso a formação técnica escolar específica, ou aos recursos financeiros da cena, talvez porque passaram a produzir dentro de certa estrutura possibilitada pelas políticas culturais públicas, surgidas na década de 2000. Esse é um debate que devemos enfrentar em breve, principalmente porque o cenário que surgiu há vinte anos está agora em franca decadência. Mas acho importante lembrar, não porque quero parecer herói da resistência, mas porque é parte da minha história, mesmo quando nas piores condições materiais e econômicas me lancei no desafio de continuar criando, música, texto de pesquisa, texto de ficção, de teatro, de crítica cultural, há essa tentativa e erro na lapidação da pedra bruta das primeiras ideias, por extremo amor de um amador do pensamento vertido em coisa que brilha. Importante colocar que poucas vezes deixei de estudar artes e culturas negras e buscar a melhor condição de criação e disseminação do meu próprio trabalho e dos parceiros e parcerias que colam nos coletivos em busca desse corisco. Brilho muitas vezes fugaz, ouro de tolo Segui fazendo gravação em horários madrugadeiros em bons estúdios de quinta, "showzinhos" em escolas e peças de teatro em igrejinhas do interior e depois em centros culturais da periferia sempre foi pra mim muito sério, muito verdadeiro e com profundo significado político e subjetivo. Quero dizer uma espécie de desafio auto projetado. Então ganhar meu primeiro prêmio de teatro em 2006 com texto incipiente, mas do qual me orgulho, não foi um salto, resultado de um longo cultivo. Como minha participação como ator agora em Gota D'água Preta próximo de completar 60 anos, também não é resultado de um pulo, nem de privilégio algum, mas fruto de uma busca pela beleza da vida e do encantamento possível a um homem negro pobre que vive na virada do século XX para XXI. Quero dizer sou portador dessas marcas do tempo, essas cricatrizes nem sempre visíveis numa primeira olhada. Nos últimos dez anos publiquei livros e textos avulsos tratando de teatro negro, participei de formações, workshop de interpretação, dei curso para jovens artistas, fiz pesquisa de campo nessa temática e colaborei com vários coletivos com formação de depoimentos, forneci conteúdos para cineastas e platestrei ao lado de pesquisadores e pesquisadoras de referência na área. Enfim quero dizer novamente que estar no elenco de gota d'água preta é poder acompanhar de dentro um barco do qual também sou protagonista. Motivo de grande orgulho e zero soberba, porque todo os dias levanto cedo e contabilizo todas as perdas e ganhos da vida. Depois tomo um café amargo e sigo cantado. Agradeço imensamente aos amores e amoras cá do RJ que nos foram ver e compreendo quem não pode ou não quis. Quais perguntas essa Gota lança no ar sobre essa linguagem? Que espelho invertido oferece aos pensadores do teatro para refletirem sobre o impacto da racialidade e do racismo no âmago dessa linguagem? Que questões abrem sobre o debate em torno de narrativa única, evolucionista e brancocêntrica da História do Teatro Brasileiro e de um suposto Teatro Universal? Que questões faz eclodir sobre inovações criativas e conceituais no campo da dramaturgia e do teatro no Brasil e na diáspora, inclusive num teatro negro europeu?
Fotos de Salloma Salomão. Salloma Jovino Salomão Compartilhado com Público Antontem e Ontem no Itaú Cultural Gota D'água Preta, em retorno. Depois de um longo tempo de queda estamos nos reconstruindo. O país inteiro está assim. Lindo assistir de dentro duas artistas negras quase sexagenárias assumindo o texto e canção de Paulo Pontes e Chico Buarque, para recompor um imaginário do Brasil, nação que nos elimina ou apaga, nos menospreza e mata. Carlota Joaquina e Juçara Marçal em pleno vigor, força e alegria, inteligência e delicadeza. Sou grato por ser parceiro e contemporâneo de ambas. Sou grato a Je Jé Oliveira pela oportunidade de aprendizagem. Esse tem sido nosso trunfo, apreender o mundo uns com as outras no mesmo tempo que o recriamos. O texto e montagem que eram auto elogios a classe média branca intelectualizada se converte em manifesto contra o infanticídio, o feminicídio e genocídio cometido contra as pessoas negro-mestiças no longo temp. Gota Dagua Preta oficial. Foto por Natalia Souza.
Gota d'água Preta reestréia no Itaú Cultural em São Paulo. Derradeira apresentação hoje 19 horas. Em outubro em Festivais de teatro em Portugal. Brasa quase fria e reacende.by Mateus Souza.
Gota d'água preta. Um ponto de referência na criação artística etnicamente assinada. A elite cultural branca pode fazer beicinho, criticar em boca miúda, boicotar. Contudo, não tem como ignorar um fato tão importante hoje, quanto a montagem de Anjo Negro pelo Teatro Experimental do negro, nos anos 1940. Não mais simples disputa de narrativa, mas, reconstrução de imaginário. Se as instituições da branquitude, de repente começarem a avalizar tais produções, será porque o fim estará próximo.
Gota D'água Preta seria uma montagem histórica apenas por sua existência. Cada corpo, voz, musicalidade, talento e presença empenhado na sua construção traz aos um cadinho dos desejos coletivos da nossa gente. Cada objeto de cena é um signo dos valores civilizatórios empenhados na constituição simbólica e do imaginário dessa sociedade. Cada artista na cena ou fora da luz emprestou sua fibra, conceito e visão de mundo. O resultado já foi assistido por milhares de pessoas em São Paulo e grande SP. Agora em Porto Alegre.
Gota D'água Preta faz esse ato crível do grito que começa nas entranhas e eclode no mundo. Esforço coletivo canalizado pela Direção de Jé Oliveira. E não há dúvida de que é portador de técnica, conhecimento da linguagem, senso de liderança e oportunidade. Reuniu um elenco de primeira com pessoas de diferentes habilidades e várias gerações . O caldo criativo já foi visto por mais de dezena de milhar de pessoinhas pelo Brasil e ainda o será, a depender do avanço do bolsonarismo cultural. Parabéns Jé Oliveira . Parabéns Gota D'água Preta. “Deixa em paz meu coração Que ele é um pote até aqui de mágoa E qualquer desatenção, faça não Pode ser a gota d’água”. É dia 11/03, na MITSP, abrindo a plataforma BR. Concepção, Idealização e Direção Geral de Jé Oliveira, ganhador do Prêmio APCA de Melhor Direção em 2019. As inscrições para os ingressos começam no dia 09/03 no site do Sesi-SP.
“Já lhe dei meu corpo, minha alegria Já estanquei meu sangue quando fervia Olha a voz que me resta, olha a veia que salta, olha a gota que falta pro desfecho da festa”. De 08 até 24 de março no Centro Cultural São Paulo. Sextas e sábados às 20h e domingos às 19h. R$30 inteira | R$15 meia. Ing já a venda pela Ing Rápido e nas bilheterias do CCSP. "Não temos dúvidas que se trata de um momento histórico para a sociedade brasileira e para o teatro, sobretudo: um texto clássico da dramaturgia nacional de 1975, 44 anos depois ineditamente é refeito sob a ótica e protagonização negra em todas as funções, da direção à atuação, realizando uma coerência racial e social já contida no seu nascimento e até agora relegada. 13 pessoas em cena, sendo 10 negras. Para além disso, os conteúdos da obra nos ajudam a refletir o agonizante Brasil de hoje de um modo assustadoramente lúcido, belo e potente. Esperamos vocês para comungar do poder da palavra falada e cantada nessa curta temporada de estreia. Sonho quando se realiza pede presença... Até lá!!!! Beijos." Curador CCSP | Kil Abreu Produção | Gira Pro Sol Produções 📷Evandro Macedo
https://vejasp.abril.com.br/atracao/gota-dagua-preta/ https://mitsp.org/2020/gota-dagua-preta/http://flertai.com.br/2019/03/ccsp-recebe-gota-dagua-preta/ https://guia.folha.uol.com.br/teatro/musical/gota-dagua-preta-ccsp-liberdade-1947225385.shtml https://www.facebook.com/events/250931809121129/250931839121126/ https://diversos22.sescsp.org.br/programacao/55000003408398/gota-dagua-preta https://observatoriodoteatro.uol.com.br/criticas/ambiciosa-gota-dagua-preta-tem-excelente-premissa-mas-desenvolvimento-pueril http://palcoclassico.blogspot.com/2019/02/gota-dagua-preta.html

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