Eugenio Vinci repercute a assumpção de Zé Celso aos infernos de Dionísio

O homem e o cavalo 17/07/2023 Uma mulher com pinto? Um homem com seios? Nenhum dos dois, os dois em um? Uma travesti nua na cena final do último atoa leitura dramática de O homem e o cavalo, de Oswald de Andrade, dirigida por Zé Celso, no teatro Sérgio Cardoso, em 1985. Havia muita gente na plateia. Mais de cem atores no elenco. E um cavalo. Assisti a tudo com o nariz colado em Dionísio Azevedo, Sérgio Mamberti, Raul Cortez, Cláudia Alencar, Célina Helena, Elke Maravilha e outros atores. Uma “celebração selvagem”, como escreveu o crítico Décio de Almeida Prado. Era teatro? Não era teatro? Os atores liam suas falas, mas aquilo era muito mais teatro do pouco teatro que eu já tinha visto na vida. Assombro, alumbramento, epifania. Meus maxilares travaram quando um cavalo entrou no palco e pateou no piso de madeira. Cai, não cai, cai… não caiu. Uma mulher nua montava o animal. Era o Homem e o Cavalo! Não me lembro bem a sequência da obra. Não sei quantas cenas aconteceram entre a entrada do cavalo e o fim da peça. Nesta hora, anunciam a Camarada Verdade. Substituindo Sônia Braga, que estava nos Estados Unidos, entra a atriz, cantora, ativista e travesti Cláudia Wonder. Sem ler, microfone na mão, interpreta a última fala da peça, que arrematava abrindo o roupão acetinado atrás do qual saltava seu corpo nu. Uma esfinge zé-celso oswaldiana pedindo decifração. Zé Celso reinventava a antropofagia de Oswald de Andrade transformando o Sérgio Cardoso, um teatrão tradicional, num grande terreiro, num estádio de futebol, revertendo toda hierarquia palco-plateia, autor-público, descosendo a herança colonial, trançando novos fluxos, que manariam até a construção do novo Teatro Oficina na década de 1990. Eu não sabia nada disso naquela noite, mas aquela encenação tornou-se o parâmetro de bom teatro para mim. Existem fragmentos desse espetáculo no Youtube e a cena final pode ser vista no filme Meu amigo Cláudia, título tirado de uma crônica de Caio Fernando de Abreu sobre Wonder. Filme e crônica imperdíveis. Foi a única peça de Zé Celso que assisti. Não me perguntem por quê. Mas o Oficina está lá, vivo, espero voltar aqui pra contar como foi minha segunda vez. ------- * Imagem: Cláudia Wonder na cena final de O homem e o cavalo, frame do filme Meu amigo Cláudia, direção de Dácio Pinheiro (2012). Eugênio Vinci de Moraes nasceu em São Paulo em 1963 e mora em Curitiba desde 2006. É professor de Língua e Literatura Brasileira, revisor e tradutor bissexto. Mantém um blog de crônicas, o Letra Corrida, desde 2019. Publicou Rua! Crônicas de reclusão e reencontro (Cambalache, 2023) e Processos de Revisão Textual (Intersaberes, 2020). Traduziu, entre outros, O marquês de Roccaverdina, de Luigi Capuana (Berlendis&Vertecchia, 2005), As novelas de Pescara, de Gabrielle D’Annunzio (Berlendis&Vertecchia, 2007), e uma versão em prosa da Divina comédia, de Dante Alighieri (L&PM, 2016). Uma crônica e um poema seus ficaram entre os finalistas do Prêmio OFF-Flip de 2002.
https://vimeo.com/257851348?login=true#_=

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